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Mar 15
  1. A angústia

A vida do homem é caracterizada pelo sofrimento. Assim, a ideia do sofrimento e dor pode ser conduzida à ideia da angústia. Ao pretendermos falar da angústia, podemos recorrer a Kierkegaard, que apresenta um pensamento mais concretamente virado à angústia, diferentemente de Schopenhauer, que não se vira tanto para este conceito.Todavia, na compreensão do seu pensamento, podemos entender a legitimidade que se dá ao tema da angústia.

É que a dor e o sofrimento, evocam uma angústia. Aliás, na biografia de Schopenhauer deixa-se claro que com seu abandono de Berlim para Frankfurt, Schopenhauer tenha levado uma vida de angústia e ascese. É por isso que em toda a sua obra, a dor, sofrimento e se assim se julgar conveniente – a angústia – constituem os principais focos da sua reflexão. Como afirmam Marcondes e Japiassú, “angústia é um mal-estar provocado por um sentimento de opressão, seja de inquietude relativa a um futuro incerto, à iminência de um perigo indeterminado mas ameaçador, ao medo da morte e às incertezas de um presente ambíguo” (MARCONDES; JAPIASSÚ, 2001:14). É como estes dois autores vão definir a angústia.

Talvez não seja muito relevante trazer aqui em detalhes a biografia de Schopenhauer para mostrar a sua angústia, mas sim, seja pertinente referir que Schopenhauer, teve uma existência amarga que o condicionou a uma vida totalmente angustiante. O seu abandono de Berlim e fixação em Frankfurt e as relações com a sua mãe, tornam-se por conseguinte, o momento de tanta angústia, que levou até ao final da sua vida.

Em Kierkegaard, a angústia é tida como um estado de inquietude do existente humano provocado pelo pressentimento do pecado e vinculado ao sentimento de sua liberdade. Em Heidegger, como insegurança do existente diante do nada: o sentimento de nossa situação original nos mostra que fomos lançados no mundo para nele morrer. Já em Sartre, como consciência da responsabilidade universal engajada por cada um de nossos actos: a angústia se distingue do medo, porque o medo é medo dos seres do mundo, enquanto a angústia é angústia diante de mim. Aliás, “é preciso renunciar inteiramente o cogito cartesiano e fazer da consciência um fenómeno secundário e passivo. Na medida em que a consciência se faz, ela nunca é senão o que aparece a si mesma. Portanto ela possui uma significação, deve contê-la nela como estrutura da consciência” (SARTRE, 2008: 52).

A terminologia usada por Schopenhauer e Kierkegaard, é por conseguinte a mesma a nível do significado, dado que o primeiro prefere mais usar o termo culpa e o seguinte o termo pecado. Todavia, nada vicia a compreensão deste assunto.

A articulação do conceito de angústia em Kierkegaard é associada ao problema do pecado cristão, e mais concretamente parte da concepção do pecado de Adão e Eva. Assim, “a angústia tal como era em Adão jamais reaparecerá, porque Adão introduziu a pecabilidade no mundo. Donde, que essa angústia tivesse duas analogias: a angústia objectiva na natureza e a angústia subjectiva no indivíduo; das duas, a segunda contém algo mais e a primeira algo menos do que nunca poderia conter a angústia de Adão” (KIERKEGAARD, 1972: 84).

Mais uma vez a relação mundo e indivíduo! É que nesta relação há sempre algo a se explicar melhor, que é portanto a questão da singularidade e da parte no todo. O mundo é por assim dizer o todo e o indivíduo a parte. Mas a questão é que o que faz o mundo é sempre o indivíduo, pois o todo é a associação das partes. Assim, a angústia será igualmente entendida como existente no mundo quando esta for entendida como existente e patente nos indivíduos. Isto é, a existência da angústia está inteiramente dependente da existência dos indivídous.

O facto é que na filosofia schopenhaueriana, conhecemos um sentido de culpabilidade que se instala no mundo em favor da culpabilidade que um indivíduo assume em razão dos seus actos. Igual acontece com a questão da pecabilidade entendida por Kierkegaard no homem. Assim acontece que a angústia é a vertigem da liberdade que nasce quando ao querer o espírito instituir a síntese, a liberdade mergulha o olhar no abismo das suas possibilidades e se agarra à finitude para não cair.

Assim, para Kierkegaard o objecto da angústia é o nada sobre o qual Schopenhauer entende que “o nada não é compreendido como nada, senão na sua relação com alguma coisa. Ele supõe sempre a existência de tal relação e, portanto também a existência de alguma coisa” (SCHOPENHAUER, 2012a: 205).

Kierkegaard, faz uma relação entre o passado e a angústia, onde acredita que as sequelas do passado só podem constituir motivo de angústia enquanto se fazerem algo possível, o que significa que seja algo que possa vir a ter repercuções futuras, fora a isso, é quase que impossível atestar o passado como algo de angustiante. “O passado, para me dar angústia, deve apresentar-se perante mim como algo que de possível. Se eu tiver angústia por um mal passado, não será por esse mal como passado e sim como algo que se pode reproduzir, quer dizer, que pode tornar-se futuro” (KIERKEGAARD, 1972: 127).

Nesta relação do tempo com a angústia, podemos regressar à relação do tempo com a vida, feita por Schopenhauer, segundo a qual a única forma de vida possível é o presente, sendo o passado um simples registo dos factos e que não tem uma acção directa na vida presente. É que o passado e o futuro não existem objectivamente, senão como puras abstracções mentais. Assim, a angústia só pode ser realizável no presente e nunca no passado, pois, o passado é irrecuperável e o futuro sempre impossível.

Nas acepções de Schopenhauer e de Kierkegaard, entendemos que a vida e a angústia são apenas do domínio do presente, único momento possível e que tem implicações directas na vida do homem. Fora deste momento, nãose pode fazer face a nada. Aliás, mesmo nesta questão de Kierkegaard de apresentar a angústia por um mal passado, a única possibilidade é de ser angústia enquanto no futuro criar algumas implicações, e efectivamente em última instância concluímos que seja no presente e nunca fora dele porque o futuro é impossível.

Numa outra linha, seja em Kierkegaard assim como em Schopenhauer, angústia, sofrimento e dor, são fruto da acção do sujeito humano, regido pela sua vontade, que o conduz a este estado.

Lic. Filipe Serafim

publicado por pfungumuza às 11:14

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